• Blog

    gus

    POPSEG - Bastardos Inglórios

    Tradução de uma análise de segurança operacional do filme Bastardos Inglórios.

    Divirtam-se!


    Aprendendo lições de segurança operacional... e escalpelando nazis

    Com a ascensão do fascismo tanto nos Estados Unidos como na Europa, é um bom momento para lembrar todo mundo de Bastardos Inglórios. Esse filme é cheio de pessoas dando porrada em nazis e oferece várias lições divertidas de segurança operacional. O texto seguinte contém tanto spoilers como importantes conclusões do filme.

    Lição 1: Não confie em alguém que tem tudo a perder para ajudar você e nada a ganhar.

    A cena de abertura de Bastardos Inglórios apresenta um confronto entre um oficial nazista e um fazendeiro produtor de leite francês que está escondendo uma família judia no porão da sua casa. Os judeus confiaram sua segurança ao fazendeiro porque, antes da ocupação alemã da França, ele era um de seus vizinhos. O fazendeiro não tem nada a ganhar ajudando os seus vizinhos judeus além do fato de que oferecer proteção para os seus vizinhos quando eles estão sendo ameaçados de genocídio é a única coisa decente a se fazer. Infelizmente, o fazendeiro tem três filhas e um grande interesse em mantê-las a salvo dos invasores alemães. O fazendeiro revela a localização da família judia porque entre protegê-los e proteger a sua família tornou-se mutuamente exclusivo.

    As pessoas que aceitam ganhar pouco para nos ajudar raramente escolhem a decência sobre a preservação de seus próprios interesses. Isso não necessariamente significa que nós não devemos confiar em tais pessoas, porém significa que precisamos ter conversas explícitas com eles sobre quais riscos estarão dispostos a aceitar ao nos fornecer assistência, especialmente quando a traição acarretará em consequências graves.

    Lição 2: Compartilhe detalhes exclusivamente na base da necessidade de saber.

    Shoshanna é uma mulher com um plano. Para executá-lo, ela necessita do completo acordo com seu parceiro de trabalho, Marcel, e seus serviços de projecionista de filme. O plano dela é tanto perigoso quanto frágil, e apenas uma brecha de segurança poderia colocar ela e seu co-conspirador num campo de concentração (ou pior), deixando Hitler e a alta cúpula do partido Nazista livres para continuarem o seu reino de terror. Felizmente para Shoshanna, ela tem duas coisas realmente importantes a favor dela: ela sabe ficar fria e sabe que não deve compartilhar detalhes essenciais com pessoas não essenciais. Shoshanna nunca revela nem um único detalhe sobre o seu plano para o projecionista, ao invés disso, escolheu fazer aquilo que você poderia chamar de "um incentivo alternativo" para a sua cooperação. Na verdade, fora Marcel, cuja sua completa lealdade já havia sido verificada, e a sua colaboração é essencial para garantir o sucesso do plano de Shoshanna, ela jamais disse uma palavra sequer sobre as suas intenções com ninguém, ficando livre e solta para executar o seu ato de vingança.

    Essa lição se aplica na vida real: se você nunca falar para os seus colegas nada mais que o necessário para eles executarem a parte deles no plano, você reduzirá significantemente o risco deles compartilharem informações prejudiciais e arruinar os seus planos.

    Lição 3: Domine suas fraquezas assim você poderá contorná-las.

    O Tenente Archie Hicox é um soldado exemplar e um espião acima da média que entende alemão fluentemente. Infelizmente, o Tenente Hicox fala com um sotaque incomum e enquanto os seus conhecimentos sobre o cinema alemão são incomparáveis dentro das forças Aliadas, o seu conhecimento sobre a cultura alemã é muito limitado em vários aspectos. Também é muito limitada a consciência de Hicox sobre a sua fraqueza. Como resultado da sua falta de auto-consciência, Hicox chama atenção de sua reunião de cobertura ao ser escutado falando com um sotaque estranho, e, por fim, acaba enterrando toda a missão, resultando na sua própria morte e na morte de quase todos na sala. Fraulein von Hammersmark mais tarde diz para o Tenente Rains que Hicox estragou tudo ao mostrar incorretamente os dedos no sinal de "três" enquanto fazia um pedido para o garçom. Embora isso seja com certeza uma descrição precisa dos eventos, a verdade é que ele estragou a operação por não ter o bom senso em calar a maldita da boca uma vez que ele chamou a atenção do oficial da SS.

    Isso oferece duas conclusões do mundo real: primeiro, esteja consciente sobre a sua fraqueza para que você possa trabalhá-las além delas. A segunda, a qual está relacionada, é estar suficiente consciente para saber quando a sua operação falhou, assim você pode retroceder a tempo para reagrupar e tentar de novo depois - ou pelo menos você pode viver para lutar mais um dia.

    Lição 4: Limpe a sua própria sujeira.

    Claro, Bridget von Hammersmark fez um erro crítico na missão ao escolher um bar lotado de soldados nazistas como o local para o seu encontro com os Bastardos, mas o seu erro mais mortal foi negligenciar em se limpar antes de deixar a cena. Pode ser quase impossível manter a sua sanidade quando tudo está caindo aos pedaços em sua volta, mas se você está engajada em algo subversivo ou clandestino, você necessita manter a calma durante as catástrofes para garantir que o problema não se dissemine. No caso da Bridget von Hammersmark, um autógrafo descartado e um sapato errado definitivamente selou o destino dela.

    No mundo real, limpar a sua própria sujeira pode ser simples como apagar uma conversa e o histórico de conversas antes de ir para uma ação arriscada, ou se certificando que a sua mochila não possui nada que possam te prender pelo porte antes de sair de casa, ou verificando se você não está deixando para trás nada potencialmente incriminador.

    Lição 5: Às vezes você não pode salvar um plano.

    Os Bastardos tinham um plano fechado para se infiltrar na estréia do filme de Fredrick Zoller: enviar todos os três operativos fluentes em alemão para acompanhar a famosa atriz alemã Bridget von Hammersmark para a exibição de Stolz der Nation, e usar o evento como uma oportunidade para eliminar Hitler. Infelizmente, todos os Bastardos fluentes em alemão estavam presentes no desastroso encontro com Frau von Hammersmark no porão e nenhum deles sobreviveu. Agora, a maiora das pessoas encararia esses fatos com um ar de resignação, mas o Tenente Aldo Raine não é a maioria das pessoas. Raine fez a decisão extremamente má aconselhada e lastimável de seguir em diante como planejado, posando de italianos ao invés de alemães. De fato, Aldo fala italiano... ou tipo isso. E claro, Frau von Hammersmark fala para ele que os alemães não tem um bom ouvido para o sotaque italiano... mas, de forma sensata, todas as partes envolvidas deveriam ter pedido para abortar.

    Às vezes, é impossível salvar um plano. O melhor que você pode fazer é pedir para abortar e viver para lutar outro dia - mesmo que isso significa retroceder de um plano para assassinar Hitler, ou reconhecer que é hora de sair de uma ação, ir para casa e começar a se preparar para a próxima.

    Lição 6: O mais perigoso tipo de adversário é aquele que não tem nada a perder.

    Shoshanna Dreyfus, aka Emmanuelle Mimieux, é uma jovem mulher francesa que tem um cinema. Sem o conhecimento de ninguém além de seu amante e relutante mas leal colaborador, Marcel, Shoshanna é também uma jovem mulher judia cuja família foi massacrada diante de seus olhos, que quase não escapou de compartilhar o mesmo destino. Em outras palavras, Shoshanna está pouco se fodendo e deseja queimar tudo para ter sua vingança e prevenir outros de terem o mesmo destino que a sua família. Shoshanna é o epítome de um adversário perigoso porque ela decidiu que não tem nada a perder.

    A lição aqui é uma lição sombria: você apenas pode derrotar um adversário disposto a sacrificar tudo para te eliminar agindo de forma preventiva. No melhor dos cenários, você não deve fazer esse tipo de inimigo em primeiro lugar. Nos piores cenários, você deve neutralizar tais ameaças antes que eles sejam capazes de decretar destruição mútua assegurada.

    Lição 7: Seja cuidadoso ao fazer acordos com o seu adversário.

    Talvez chegue um momento na sua vida que, assim como Coronel Hans Landa, você precise fazer um acordo com seu inimigo para assegurar a sua sobrevivência. A lição para se tirar do acordo feito por Landa com os militares americanos é simples: tenha certeza de passar a limpo todos os detalhes e não confiar no seu adversário mais que o necessário. Landa, por exemplo, provavelmente não deveria ter confiado em Aldo Raine para aderir todos os detalhes de seu acordo que ele fez.

    No contexto da vida real, isso significa que você nunca deve confiar na polícia quando eles oferecem um acordo em troca de informações. A polícia frequentemente garante aos detidos que se eles cooperarem (por exemplo, responder as questões e entregar informações), eles vão falar para o promotor ir com calma. A realidade é que a situação é que a polícia não tem controle de como um promotor vai acusar ou tentar, e um policial nunca irá numa audiência para depor que o réu deverá ser exonerado, a não ser que o advogado de acusação oriente-o disso.

    É também importante ser cauteloso em fazer acordos com os seus adversários quando você está considerando aceitar um acordo de judicial oferecido pelo advogado de acusação. Tenha cuidado com os acordos judiciais que estipulam a liberdade condicional, uma vez que a liberdade condicional freqüentemente traz consigo uma suspensão das escassas liberdades civis oferecidas pelo Estado - às vezes, não apenas para a pessoa em liberdade condicional, mas também para todos aqueles que estão próximos dessa pessoa. Se você está considerando aceitar um acordo judicial em vez de ser julgado, trabalhe com o seu advogado para tentar negociar um acordo que realmente protege você e seus companheiros.

    Sempre se esforce para descobrir o que os seus inimigos podem perder se eles não mantiverem a sua palavra. Se é insignificante - ou mesmo nada - então não há razão para acreditar no acordo.

    Por Elle Armageddon

    2017-05-10

    Crimethinc - POPSEC Inglorious Basterds - Operacional security lessons from escalping nazis